O Counter Strike, mais conhecido como CS, marcou a vida de toda uma geração de brasileiros. Fez época nas lan houses nos anos 2000 e permanece popular até os dias atuais. Atualmente o jogo é uma das principais modalidades de e-sports, com campeonatos em todo o mundo e premiações milionárias. O Brasil, inclusive, esteve no topo dos torneios mundiais em várias eras do game. Mas essa popularidade esconde uma batalha: a das mulheres em busca de reconhecimento no mundo competitivo do CS e dos e-sports em geral.
O público feminino é maioria na comunidade gamer. Segundo a Pesquisa Game Brasil (PGB), as mulheres representam 53,2% dos gamers no Brasil. Nos e-sports, porém, o panorama é diferente, apenas uma parcela segue carreira competitiva. Marina Sabia, que utiliza o nickname de "LyttleZ" profissionalmente, é jogadora de Counter Strike 2 pelo time da Atrix. Ela explica que, embora o cenário competitivo de CS esteja sempre crescendo, a presença feminina ainda é recente.
Apesar do sucesso da modalidade, os principais times do mundo ainda são masculinos. LyttleZ explica que o cenário feminino sofre por falta de visibilidade, investimentos e poucos campeonatos ao longo do ano "as meninas estão acostumadas com esses altos e baixos, um ano ter muitos campeonatos e no outro cair um pouco". A jogadora ainda comenta que, em 2026, torneios de CS, sobretudo na América do Sul, serão escassos.
Para ela, a instabilidade de patrocinadores traz inconstância e perda de oportunidade para as atletas. "Não é um cenário que gera retorno financeiro ainda, mas quando começamos a crescer, os investimentos pararam", ela continua. "Teria que ser algo a longo prazo, mas nem sempre a galera quer fazer isso". Ela complementa dizendo que as jogadoras são desvalorizadas por uma comunidade que ainda é machista dentro dos jogos.
Para as mulheres, entrar no mundo dos games não é fácil. LyttleZ conta que isso é uma questão do machismo estrutural "Enquanto uma menina está ganhando uma boneca, um menino ganha um PlayStation. Desde o começo não somos incentivadas a jogar. As jogadoras que furaram a bolha tiveram que dar a cara à tapa. Sempre foi muito difícil". O ambiente dos jogos online competitivos também não é agradável às mulheres. "Você entra para jogar e o cara já te xinga ou fica dando em cima de você. Conheço muitas meninas que pararam de jogar por causa disso. Eu já passei por isso inúmeras vezes", disse LyttleZ.
Ela ainda diz que muitas jogadoras perdem até a vontade de abrir o microfone durante o jogo, devido aos xingamentos. Todo o preconceito fez com que muitas competidoras se unissem para continuar jogando. É o caso do projeto Lotus, criado pela comunidade feminina, que busca criar um espaço seguro para as atletas jogarem. "A gente tentou unir mais a comunidade, divulgamos isso para jogarmos entre nós e até fazer alguns eventos", explica LyttleZ. Ela diz que muitas mulheres se ajudam no projeto: "Eu já até vi a galera mandando vaga de emprego. É algo que as meninas criaram pra se ajudar. É legal que isso sai do jogo também".
Além disso, o atual time da jogadora, a Atrix, é uma organização que também foi criada pelas atletas. "Me juntei com algumas jogadoras que já conhecia e estavam sem time. Tentamos procurar muitas organizações, tivemos muitas reuniões que não levaram em nada", diz LyttleZ. Ela conta que, após isso, decidiram ir em frente na criação da equipe "A gente vai fazer do nosso jeito, de nós pra nós, mulheres".
A jogadora explicou que, dentro do cenário competitivo, aos poucos as meninas estão conseguindo conquistar seu espaço. Em anos anteriores, os campeonatos femininos tiveram premiações que chegaram a 200 mil dólares. E mesmo sem o circuito forte atualmente, ainda existem esperanças de que o investimento volte. Por outro lado, ela comenta que as jogadoras casuais ainda sofrem muito dentro do cenário online, com um ambiente tóxico e machista no dia a dia das gameplays.