Aquecimento da indústria impacta a relação do ouvinte com a música

A digitalização acelera o consumo, transformando o que antes era uma escuta ativa e íntima em um novo processo
por
Manuela Abbate
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01/05/2026 - 12h
Ilustração de fones de ouvido em um fundo colorido
Ilustração feita por Manuela Abbate 

A mudança dos meios de difusão de áudio — do físico para bytes — promove uma nova interação entre o consumidor e o produtor, moldada pelo digital e suas variáveis. Com isso, o ouvinte perdeu o hábito de se envolver profundamente com o som, embora tal transformação democratize o acesso à música ao torná-la mais acessível.

Renato Epstein, membro do grupo de percussão corporal Barbatuques conta, “Ouvir um disco, pegar o encarte e acompanhar as letras era um momento sempre especial, de parar tudo para ouvir música”. O músico e produtor conta que, através das gerações, essa conexão mudou por conta do consumo em massa, que descreve como “frenético”. Assim, se torna comum não escutar faixas até o fim e não se debruçar no contexto musical das obras.

Tal processo altera a produção, “músicas simples vendem mais”, afirma Renato. “Pouco contraponto. Pouca inovação, pouca experimentação. Esses elementos fazem com que o público não tenha que prestar atenção nos elementos musicais”.

 A volatilidade que é introduzida nessa relação também é alarmante. Indira Castillo, cantora solo e vocal da banda Malvada indica “músicas que passam de quatro minutos comprovadamente já não funcionam tão bem nas plataformas de streaming”. Um cenário se forma: o artista se vê tendo que se reduzir a padrões que, para Indira, são um resultado do uso e consumo das redes sociais.

Pesquisa Consumer Pulse da Bain & Company, de 2025, revela que os brasileiros dedicam diariamente em média três horas para redes sociais, rolando o feed e sendo bombardeado por diversas informações por minuto. Essa prática impacta na percepção do conteúdo. O veículo “O Antagonista” aponta que o estímulo constante das redes leva o cérebro a perder a noção de saciedade, sempre buscando o próximo conteúdo.

Tal modus operandi leva o ouvinte a não se conectar como antes com a música. A escuta se torna volátil e secundária. Logo, a “experiência mágica” dos meios táteis, como Indira descreve mencionando cartas à mão nos encartes e cheiro de tutti-frutti em discos, se perde em meio a digitalização.

As novas engrenagens também possibilitam o acesso. Renato reitera que com as novas tecnologias a cena se expande. “Surge a produção independente. Selos passam a produzir revistas com custo reduzido, o acesso ao mercado fotográfico digital explode.”

Castillo discute o papel ocupado pelo vinil hoje, um resgate que, embora promova o contato íntimo e o cuidado quanto à música, tem seus problemas. “É importante trazer isso de uma forma mais acessível para podermos valorizar mais. Esse processo tem que acessível”.

 

 

 

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