O Grupo I da Copa do Mundo de 2026 reúne favoritismo, renovação e peso histórico. França, Senegal, Iraque e Noruega chegam na competição com o objetivo de fazer história.
França
A França desembarca no continente americano para a disputa de sua 17ª Copa do Mundo. A competição marca o fim do ciclo de Didier Deschamps, técnico que está no comando desde 2012 e disputou três vezes o Mundial, sagrando-se campeão em uma oportunidade. Ele contará com uma equipe estrelada, que une experiência e juventude, e busca superar o vice-campeonato conquistado na última edição.
Nas Eliminatórias para o Mundial, a equipe confirmou o favoritismo e liderou seu grupo, composto por Ucrânia, Islândia e Azerbaijão, com tranquilidade. A campanha foi marcada pela invencibilidade e pela eficiência ofensiva, com 16 gols em oito jogos. Esse desempenho permitiu à comissão técnica utilizar a competição para testes pontuais no elenco, como se fossem treinamentos em nível competitivo.
As atuações recentes em amistosos, Eurocopa e Nations League mantêm a seleção como candidata ao título. Confrontos contra Alemanha, Brasil e Espanha indicam o nível de exigência que as equipes deverão enfrentar em território norte-americano. No entanto, também evidenciaram fragilidades no setor defensivo. Diante de adversários de maior intensidade, a dupla de zaga, formada por Saliba, Upamecano ou Konaté, apresentou dificuldades ao enfrentar lançamentos em profundidade e a circulação rápida da bola pelos corredores laterais.
Apesar de contar com zagueiros e laterais que atuam em ligas consideradas de elite, a média de gols sofridos neste ciclo foi superior à do período anterior. Nos últimos dois anos, em confrontos contra seleções que estão no top 10 do ranking da FIFA, a equipe registrou uma média de 1,3 gol por partida. O número liga um sinal de alerta para a fase do mata-mata, na qual quem sofre menos gols tem maior chance de avançar.
Rendimento em edições passadas e candidatos à Bola de Ouro animam torcedores
Em 2022, no Catar, a França chegou ao torneio como atual campeã e avançou até a final após uma trajetória sólida, reforçando a tradição na competição. A derrota nos pênaltis para a Argentina marcou um dos jogos mais emblemáticos da história do futebol. Naquela edição, Mbappé terminou como artilheiro, com oito gols, e tornou-se o segundo atleta a marcar três vezes em uma final de Copa do Mundo. Ao todo, soma 12 gols no torneio e, aos 27 anos, inicia o campeonato com chances reais de superar o recorde de Miroslav Klose e se tornar o maior goleador da história das Copas.
O francês chegará aos Estados Unidos após se recuperar de uma lesão na coxa e, mesmo assim, continua sendo o capitão e referência técnica da equipe. Na temporada 2025/26 do futebol europeu, ele soma mais de 40 gols pelo Real Madrid. Além da capacidade de finalizar jogadas, o jogador passou a assumir um papel mais ativo na construção delas. Isso, aliado ao seu principal ponto forte, a velocidade, amplia as possibilidades ofensivas e torna o sistema de ataque mais imprevisível.
Junto dele, a equipe ainda conta com dois candidatos à Bola de Ouro: Ousmane Dembélé e Michael Olise. Dembélé, atleta do PSG e atual vencedor do prêmio, vive a melhor fase da carreira. Seu nível técnico, aliado à parte física, o torna um jogador quase imparável. A capacidade de romper linhas defensivas no 1x1 e executar infiltrações faz qualquer defensor pensar duas vezes antes de dar o bote.
Já Olise, jogador do Bayern de Munique, ganhou grande destaque nesta temporada, sendo um dos responsáveis pela campanha dominante na Bundesliga e pela trajetória até as semifinais da UEFA Champions League. O ponta francês junta velocidade a elevada precisão nos passes e finalizações, o que o levou a alcançar o “duplo duplo” no campeonato alemão.
O protagonismo do principal setor francês não se limita às suas maiores estrelas. Ainda há Rayan Cherki, Désiré Doué e Bradley Barcola, jogadores que vêm ganhando notoriedade e se destacando em seus clubes. Por outro lado, uma ausência certa para Deschamps,é o atacante Hugo Ekitiké que rompeu o tendão de Aquiles em uma partida da Liga dos Campeões contra o Paris Saint Germain
Como joga a seleção francesa
No papel, o treinador adota o esquema 4-2-3-1. Mas, durante as partidas, os atletas têm liberdade de movimentação: os pontas podem infiltrar na área, enquanto o centroavante recua para articular jogadas. Essa dinâmica e a liberdade de improvisação representam os principais trunfos da seleção.
A formação provável conta com Mike Maignan no gol. A linha defensiva deve ser composta por Malo Gusto, Upamecano, Saliba e Theo Hernández. No meio-campo, a dupla tende a ser formada por Rabiot e Tchouaméni. No setor ofensivo, Dembélé, Olise e Doué (Cherki) atuam na linha de apoio a Mbappé.
Os laterais têm papel fundamental tanto na defesa quanto na construção ofensiva. Quando avançam, o time ganha mais opções de jogadas, podendo atacar com até sete jogadores, mantendo organização suficiente para recompor com dez atletas atrás da linha da bola. A transição rápida também se destaca, ao recuperar a posse, o contra-ataque é acionado e, em poucos toques, a bola já está na zona ofensiva.
Com o novo formato da competição e a adição de uma partida, o calendário fica mais longo. Caso já esteja classificada, é provável que a França utilize uma equipe alternativa na última rodada da fase de grupos, estratégia adotada na Copa passada, contra a Tunísia. O objetivo é preservar os titulares e garantir vantagem física no restante da competição, além de dar aos jogadores do banco mais tempo para mostrar seu valor.
A seleção francesa está no Grupo I, ao lado de Senegal, Iraque e Noruega. A estreia está marcada para 16 de junho, no Metlife Stadium (Nova Jersey), diante de Senegal. Antes do início da competição, o time ainda disputará um amistoso preparatório, contra a Irlanda do Norte, que servirá como último teste antes do torneio.
Além do aspecto tático, o confronto amistoso é importante para a gestão física do elenco. Após uma temporada europeia desgastante, Deschamps deverá controlar a minutagem dos atletas, testar variações na formação preferida e avaliar opções no banco de reservas.
A lista dos 26 jogadores convocados pela França para sua 17ª participação em Copas do Mundo foi divulgada com os seguintes nomes:
Goleiros: Mike Maignan, Robin Risser, Brice Samba.
Defensores: Lucas Digne, Malo Gusto, Lucas Hernandez, Theo Hernandez, Ibrahima Konaté, Jules Koundé, Maxence Lacroix, William Saliba, Dayot Upamecano.
Meio-campistas: N'Golo Kanté, Manu Koné, Adrien Rabiot, Aurélien Tchouaméni, Warren Zaïre-Emery.
Atacantes: Maghnes Akliouche, Bradley Barcola, Rayan Cherki, Ousmane Dembélé, Désiré Doué, Jean-Philippe Mateta, Kylian Mbappé, Michael Olise, Marcus Thuram.
Senegal
Na decisão da Copa das Nações Africanas, realizada em 18 de janeiro deste ano, Senegal protagonizou um duelo equilibrado diante do Marrocos. O jogo ganhou contornos de tensão após a marcação de um pênalti a favor dos marroquinos, o que levou os senegaleses a deixarem o gramado em protesto. A situação foi revertida pelo capitão Sadio Mané, que convenceu os companheiros a retornarem para terminar a partida.
Dentro de campo, os senegaleses levaram a melhor. Brahim Díaz desperdiçou a cobrança, e, na prorrogação, Pape Gueye marcou o gol que garantiu a vitória dos Leões de Teranga. Apesar do resultado, a paralisação teve desdobramentos fora das quatro linhas. Em março, a Confederação Africana de Futebol anunciou que o recurso de Marrocos contestando o título de Senegal foi aceito, com base nos artigos 82 e 84 do regulamento da Copa Africana de Nações. A decisão gerou críticas e resultou na oficialização do Marrocos como campeão do torneio.
Histórico na Copa do Mundo
Mesmo após a polêmica, Senegal segue como uma das representantes do continente africano na Copa do Mundo de 2026. Antes de se consolidar como uma das forças da África, a seleção chamou a atenção do mundo pela primeira vez em 2002, quando protagonizou uma campanha surpreendente na sua estreia no Mundial.
A seleção integrou o Grupo A daquele torneio, juntamente com França, atual campeã da época, Dinamarca e Uruguai. Para o espanto de muitos, os africanos ganharam da seleção francesa e avançaram para a fase eliminatória em segundo lugar na tabela, atrás dos dinamarqueses. Nas oitavas de final, encontraram a seleção da Suécia, que contava com Larsson e Zlatan Ibrahimovic, nomes que não conseguiram parar os Leões de Teranga, com Senegal ganhando por 2 a 1. A campanha terminou nas quartas de final, quando a Turquia conseguiu parar os senegaleses, com uma vitória pelo placar mínimo.
Senegal precisou esperar 16 anos para retornar ao mundial e, em 2018, chegou à edição da Rússia cercado de expectativas, pois o craque da nova geração Sadio Mané liderava a equipe em sua primeira Copa com a camisa senegalesa. A seleção participou do Grupo H, em conjunto com Japão, Colômbia e Polônia. A equipe africana venceu na estréia por 2 a 1 contra os poloneses, porém um empate por 2 a 2 diante dos japoneses e a derrota para os colombianos, impediram a seleção de seguir no campeonato. Senegal terminou empatada com o Japão em todos os critérios tradicionais, ambas as seleções terminaram com quatro pontos conquistados, marcaram quatro gols e sofreram quatro. A eliminação ficou marcada na história do torneio porque foi a primeira vez que uma equipe foi eliminada devido ao fair play (quatro cartões amarelos contra seis).
Na Copa do Mundo do Qatar, em 2022, com uma equipe mais experiente e sem complicações, a seleção se classificou em segundo lugar do Grupo A. Senegal perdeu apenas para a Holanda e superou a seleção qatari e equatoriana mesmo sem seu principal jogador, Sadio Mané, cortado da convocação devido a uma lesão na fíbula da perna direita. No entanto, a trajetória não foi longa e, nas oitavas, os ingleses interromperam o sonho dos senegaleses de replicar o feito de 2002, aplicando um 3 a 0 em cima da equipe de Senegal.
A Torcida e a cultura no futebol
O protagonismo senegalês no futebol internacional também passa pela força cultural do esporte dentro do país, com os torcedores fazendo história nas arquibancadas em 2022. A torcida do país é conhecida pela energia contagiante, marcada fortemente por cantos, danças e instrumentos tradicionais que transformam o ambiente dos jogos em um verdadeiro espetáculo cultural.
Além disso, muitos jogadores carregam consigo histórias de superação que dialogam diretamente com a realidade do país. Os ídolos nacionais se tornam referências não apenas pelo desempenho esportivo, mas também pelo impacto social, reforçando o papel do futebol como ferramenta de transformação. Um exemplo é o capitão Sadio Mané que é amplamente reconhecido por financiar projetos sociais em sua cidade natal, Bambali, priorizando educação, saúde e infraestrutura. Ele construiu um hospital, uma escola secundária, uma mesquita e um estádio, além de fornecer ajuda mensal de 70 euros a mais de 2.000 famílias.
Ainda em 2022, torcida e jogadores também prestaram homenagem a Pape Bouba Diop, no segundo aniversário de sua morte. O ex-jogador ficou marcado por suas atuações na campanha histórica de 2002 e segue como símbolo da trajetória do futebol senegalês.
Como jogam os senegaleses?
Sob o comando de Pape Thiaw, a seleção senegalesa mantém a espinha dorsal construída na era de Aliou Cissé, mas com ajustes que tornam o time mais flexível taticamente. A base costuma partir de um 4-3-3, que se transforma conforme o momento do jogo. Em situações de pressão na saída do adversário, Senegal muda para 4-4-2 com o objetivo de sufocar as opções de passe da defesa. Já nos momentos de marcação em bloco médio, o time mantém o esquema inicial e pressiona o adversário que tem a bola com vantagem numérica, cercando-o com até 3 jogadores para recuperar a posse.
No meio-campo, nomes como Idrissa Gueye, Pape Gueye e Lamine Camara formam um setor de forte imposição física e combatividade, ainda que com menor capacidade criativa. Por isso, a construção ofensiva se concentra principalmente pelos lados do campo, onde joga seu atleta mais habilidoso, Mané. Muitas dessas investidas são protagonizadas pela lateral esquerda que atualmente varia entre Ismail Jakobs e Malick Diouf, ambos participam na triangulação das jogadas pelos flancos e das infiltrações nas costas da defesa. Com o setor defensivo do adversário desorganizado, devido às investidas pelo lado do campo, o centroavante Nicolas Jackson surge como referência para finalizar as jogadas. Sua mobilidade, força física e presença de área fazem dele a principal peça na conclusão das ações ofensivas.
Copa do Mundo de 2026
Depois de consolidar sua identidade dentro e fora de campo, Senegal chega à Copa do Mundo FIFA 2026 cercado de expectativas. Os senegaleses compõem o Grupo I, juntamente com a forte seleção da França de Mbappe e companhia, da Noruega, que conta com medalhões da Premier League como Erling Haaland e Martin Ødegaard e o Iraque apontado como o azarão do grupo. Com uma base experiente e um modelo de jogo já assimilado, os Leões de Teranga entram na competição não apenas como representantes africanos, mas também com o sonho de replicar a histórica atuação de 2002.
Os 26 jogadores convocados para representar Senegal na Copa do Mundo são:
Goleiros: Edouard Mendy, Yehvann Diouf, Mory Diaw;
Defensores: Krepin Diatta, Antoine Mendy, Abdoulaye Seck, Kalidou Koulibaly, Ilay Camara, Moussa Niakhate, Mamadou Sarr, El-Hadji Malick Diouf, Moustapha Mbow, Ismail Jakobs;
Meio-campistas: Idrissa Gueye, Habib Diarra, Pape Matar Sarr, Pape Gueye, Lamine Camara, Pathe Ciss, Bara Ndiaye;
Atacantes: Sadio Mane, Bamba Dieng, Iliman Ndiaye, Nicolas Jackson, Assane Diao, Ibrahim Mbaye, Cherif Ndiaye, Ismaila Sarr.
Iraque
Berço de algumas das civilizações mais antigas da humanidade, o território que hoje forma o Iraque empresta à sua seleção nacional um apelido carregado de simbolismo: os “Leões da Mesopotâmia”. O nome ajuda a resumir a trajetória de uma equipe que retorna à Copa do Mundo pela primeira vez desde 1986 trazendo consigo não apenas expectativas esportivas, mas também a memória de um país marcado por guerras, invasões e décadas de instabilidade.
Em 2026, os iraquianos voltam ao maior palco do futebol tentando construir uma imagem diferente daquela que por muito tempo dominou o noticiário internacional. E talvez seus principais jogadores representam exatamente isso.
Aymen Hussein é o rosto dessa seleção, apostando em força física e resistência que o tornam um centroavante moderno, além de incansável em campo, qualidades que encarnam o espírito dessa seleção. Dominante no jogo aéreo, transformou-se em símbolo da campanha classificatória após marcar o gol decisivo que colocou o Iraque novamente em uma Copa do Mundo depois de quarenta anos.
Ali Jasim representa o lado mais criativo da equipe, um ponta veloz, técnico e imprevisível, visto como uma das grandes promessas do futebol iraquiano. Com qualidades com e sem a bola que o tornam imprevisível, ele certamente será uma das principais armas da equipe nas pontas.
Zidane Iqbal simboliza uma geração conectada ao futebol global. Formado nas categorias de base do Manchester United, o meio-campista traz ao time maior capacidade de circulação de bola e controle em momentos de pressão, além de trazer vigor físico e bom passe no meio-campo, fator que pode influenciar, devido à sua vantagem contra adversários mais leves e técnicos.
Os três ajudam a explicar a identidade de uma seleção que mistura força, improviso e sobrevivência.
Retorno do Iraque à Copa após quatro décadas, carrega outro significado além do esportivo
O retorno do Iraque ao Mundial encerra uma ausência de quatro décadas. A única participação do país em Copas aconteceu em 1986, no México. Curiosamente, é justamente em solo mexicano que os iraquianos retornam à disputa do torneio agora, em uma edição compartilhada entre México, Estados Unidos e Canadá.
Existe um peso histórico inevitável nessa coincidência. Em 1986, o Iraque disputava sua primeira Copa enquanto vivia a guerra contra o Irã. Desde então, a nação atravessou a ditadura de Saddam Hussein, a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003, a guerra civil, atentados terroristas e um lento processo de reconstrução política e social.
Poucas seleções chegam ao Mundial carregando uma relação tão profunda entre futebol e sobrevivência nacional.
A vaga para 2026 foi conquistada após a vitória por 2 a 1 sobre a Bolívia na repescagem intercontinental, disputada em Monterrey. O gol decisivo de Aymen Hussein provocou uma explosão imediata nas ruas de Bagdá. Bandeiras tomaram avenidas, carros buzinaram madrugada adentro e milhares de pessoas comemoraram o retorno ao torneio mais importante do futebol mundial.
Para muitos países, uma cena comum. No Iraque, porém, celebrações coletivas carregam outro significado. Durante anos, momentos de festa conviveram com o medo constante da violência e dos atentados. O futebol passou a ocupar um espaço raro de união em um país atravessado por profundas divisões religiosas, políticas e étnicas.
A população iraquiana é formada majoritariamente por muçulmanos xiitas, mas também possui uma parcela importante de sunitas, além de comunidades curdas, turcomenas e outras minorias espalhadas pelo país. Essas diferenças ganharam ainda mais tensão após a queda de Saddam Hussein, especialmente durante os anos mais violentos da guerra civil, quando conflitos sectários dividiram cidades, bairros e famílias inteiras.
Em meio a esse cenário, a seleção nacional se transformou em um dos poucos símbolos capazes de atravessar essas fronteiras internas. Xiitas, sunitas, curdos e turcomanos podiam discordar sobre quase tudo, mas continuavam dividindo a mesma camisa vermelha da seleção nacional.
Essa dimensão simbólica atingiu seu ponto máximo em 2007, quando o Iraque conquistou a AFC Asian Cup em meio ao período mais violento da guerra civil. A campanha se transformou em um fenômeno emocional dentro do país. Liderada pelo capitão Younis Mahmoud, autor do gol do título contra a Arábia Saudita, a seleção virou símbolo temporário de unidade nacional em meio ao conflito sectário que dividia o território iraquiano.
Quase vinte anos depois, o Iraque retorna à Copa tentando transformar aquele simbolismo em continuidade esportiva. A geração atual apresenta diferenças importantes em relação ao time campeão asiático. Há menos improviso emocional e mais organização tática. Muito disso passa pelo trabalho do técnico Graham Arnold, contratado em 2025 após a saída do espanhol Jesús Casas.
Arnold construiu sua carreira no futebol australiano apostando em equipes fisicamente intensas, compactas e competitivas. No Iraque, implementou uma proposta semelhante. A seleção atua principalmente em um 4-2-3-1, variando para um 4-4-2 sem bola. O sistema prioriza compactação defensiva, proteção da região central do campo e transições rápidas em velocidade.
O treinador entende que terá menos posse de bola contra seleções mais fortes tecnicamente, como França e Noruega, adversários do Iraque na fase de grupos. Por isso, busca transformar a equipe em um time difícil de ser dominado física e emocionalmente.
A bola parada também surge como uma das principais armas do time. Em torneios curtos, seleções consideradas inferiores costumam sobreviver em detalhes, e o Iraque aposta justamente nesse tipo de jogo físico e competitivo para equilibrar partidas contra adversários mais talentosos.
Mas talvez o maior desafio de Graham Arnold não seja tático. A seleção iraquiana carrega um peso emocional gigantesco. O futebol no país nunca esteve completamente separado da política e da violência. Durante os anos 1980 e 1990, o esporte viveu um de seus períodos mais traumáticos sob a influência de Uday Hussein, filho de Saddam Hussein. Relatos de ex-jogadores apontam agressões físicas, prisões e punições humilhantes aplicadas após derrotas da seleção nacional.
O futebol, naquele contexto, também funcionava como instrumento de medo e controle político. A geração atual cresceu tentando se afastar dessa herança traumática enquanto buscava reconstruir a imagem da seleção nacional.
Talvez por isso o Iraque seja uma das equipes mais fascinantes da Copa do Mundo de 2026. O time não entra em campo apenas para disputar partidas. Entra para disputar narrativas. Durante décadas, o país apareceu diante do mundo associado quase exclusivamente à guerra, à destruição e ao colapso político. O futebol oferece agora uma possibilidade diferente, a de uma nação que tenta reconstruir sua identidade também através do esporte.
Talvez os iraquianos não avancem além da fase de grupos. Talvez os limites técnicos apareçam diante de seleções mais fortes. Ainda assim, existe algo que já foi conquistado antes mesmo do primeiro apito.
Depois de quarenta anos, os Leões da Mesopotâmia voltaram a ser vistos pelo mundo não pelas ruínas da guerra, mas pelo rugido de sua torcida dentro de um estádio.
O técnico Graham Arnold divulgou, na última segunda-feira, a lista dos 26 convocados do Iraque para a Copa do Mundo, com os seguintes nomes:
Goleiros: Jalal Hassan, Ahmed Basil e Fahad Talib
Defensores: Mirkhas Doski, Ahmed Yahya, Manaf Younis, Akam Hashim, Zaid Tahsin, Rebin Sulaka, Frans Putros, Hussein Ali e Mustafa Saadoun
Meio-campistas: Aimar Sher, Zaid Ismail, Amir Al-Ammari, Kevin Yaqoub, Zidane Iqbal, Ahmed Qasim, Ibrahim Bayesh, Ali Jassim, Yousef Amin e Marco Faraj
Atacantes: Ali Al-Hamadi, Aymen Hussein, Mohanad Ali e Ali Youssef.
Noruega
A Noruega foi uma das primeiras a garantir a sua classificação para a Copa do Mundo de 2026. Após 28 anos da sua última participação, a seleção conta com grandes nomes do futebol mundial e uma comissão técnica que revigora o torcedor para disputar a quarta Copa de sua história, sendo considerada uma forte candidata para surpreender na competição.
A seleção que, até poucos anos atrás, apresentava pouca expressão no cenário internacional, hoje é vista como uma das melhores representantes que a Europa traz para o Mundial norte-americano. O sucesso recente está atribuído à nova geração do futebol norueguês e sua relação com o comando técnico de Ståle Solbakken.
O principal nome do elenco da Noruega é sem dúvidas Erling Haaland. O centroavante do Manchester City teve destaque em todos os clubes por qual passou desde que subiu para o futebol profissional em 2018, em seus tempos de RB Salzburg. Haaland é um atacante de nível mundial, com um estilo de jogo clássico para a posição, sendo extremamente objetivo, explosivo e principalmente físico, dados seus 1,95m de altura e sua força excedente. Por ser um goleador nato e um dos maiores artilheiros do mundo na atualidade, Haaland recebeu o apelido de “cometa”. Além de ser o artilheiro de seu clube com mais de 30 gols, ele também foi o artilheiro da seleção norueguesa nas eliminatórias da Copa do Mundo, onde marcou 16 gols em apenas nove jogos. Vale lembrar que Erling Haaland é filho de Alfe-Inge Haaland, ex-volante e ídolo do futebol norueguês, que disputou a Copa do Mundo de 1994.
O arquiteto do meio-campo dessa seleção é também um jogador de classe mundial. Martin Ødergaard, meio-campista do Arsenal, da Inglaterra, é um dos grandes nomes tanto da torcida dos Gunners quanto da torcida de seu próprio país. Dono de uma visão de jogo diferenciada, Ødegaard é um jogador que enxerga o campo como poucos, o que o torna essencial no funcionamento tático da Noruega. Com sua rápida tomada de decisão e ótimo controle de bola, a importância de Ødegaard aparece nos números, pois foi o líder de assistências da seleção norueguesa nas eliminatórias da Copa, com sete assistências no total.
Entre estrelas do futebol mundial e ótimos jogadores que compõem o elenco da seleção norueguesa, a mente por trás da execução tática do time é o técnico Ståle Solbakken. O treinador ocupa este cargo desde 2020, quando assumiu o lugar de Lars Lagerbäck, que tinha o melhor aproveitamento da história recente do futebol norueguês, mas que não conseguiu garantir uma vaga na Copa. Solbakken assumiu a posição de técnico e mudou o estilo de jogo da Noruega, fazendo com que o time jogasse a favor da potência que é Erling Haaland.
Rapidamente essa mudança tática se traduziu em sucesso. A Noruega teve uma campanha surpreendente e avassaladora ao longo das eliminatórias de 2026, liderando seu grupo como cabeça de chave e se juntando ao grupo seleto de seleções europeias que se classificaram invictas para a Copa, com oito vitórias em oito partidas disputadas.
Dentre os jogos das eliminatórias, a Noruega ficou destacada pela alta quantidade de gols marcados, terminando a fase com saldo positivo de 21 gols ao seu favor, número que se torna ainda mais alarmante quando comparado com os 5 da seleção italiana, que ficou com o segundo melhor ataque do grupo. Os jogos mais emblemáticos da Noruega na fase classificatória foram justamente contra a Itália. Os noruegueses venceram as duas partidas contra a Azzurra, por 4 a 1 e 3 a 0, estabelecendo uma forte dominância sobre a seleção tetracampeã e colocando-a na repescagem da Copa.
Mesmo com o sucesso recente, a Copa do Mundo ainda é historicamente um ponto fraco da seleção norueguesa. Participando das eliminatórias europeias desde sua criação, a Noruega apenas garantiu vaga no Mundial em apenas quatro participações em toda a sua história: em 1938, 1994, 1998 e agora, em 2026.
Em 1938, o formato da Copa era muito diferente do atual. Na época, os jogos eram disputados em sistema eliminatório direto, com a competição começando nas oitavas de final. Assim, embora aquele tenha sido o ano recorde de distância alcançado no torneio, empatada com a edição de 1998, ao alcançar as oitavas de final, a Noruega jogou apenas uma partida no Mundial daquele ano. Os noruegueses perderam para a Itália por 2 a 1 e foram eliminados.
56 anos depois, a Noruega voltou a marcar presença na Copa de 1994. A participação, no entanto, também seria discreta, já que a seleção terminou como última colocada em seu grupo e caiu na primeira fase. Os noruegueses venceram na estreia contra o México, perderam para a Itália e empataram contra a Irlanda.
A edição seguinte foi considerada a melhor participação do país em Copas do Mundo, e contou com o milagre norueguês contra a seleção brasileira. A Noruega caiu no grupo A, ao lado de Marrocos, Escócia e Brasil. O time estreou com empate diante dos marroquinos e, na sequência, também empatou com os escoceses. A classificação seria determinada na última partida e estava sendo disputada entre Marrocos, Escócia e Noruega, já que o Brasil havia se classificado, ao ganhar as suas duas primeiras partidas. O jogo decisivo dos noruegueses seria justamente contra a seleção brasileira.
Por mais que a tarefa parecesse impossível, a vitória era necessária naquela situação, por conta dos resultados anteriores do grupo. A Noruega conseguiu uma classificação heroica diante da seleção que defendia o título do Mundial. O Brasil abriu o placar com gol de Bebeto, aos 78 minutos de jogo. Enquanto isso, o Marrocos ganhava por 2 a 1 e praticamente cravava sua vaga na segunda fase. Em sequência, em um ato milagroso da seleção norueguesa, situação que também é considerada por muitos brasileiros como uma enorme falta de atenção por parte da seleção, a Noruega empatou o jogo aos 85 minutos com gol de Tore André Flo e virou a partida aos 88 minutos, em uma cobrança de pênalti, garantindo, de forma heroica, uma vaga no mata-mata.
A seleção foi eliminada nas oitavas de final, novamente contra a Itália, em uma derrota por 1 a 0. Apesar da eliminação, a classificação heroica é o que ficou na lembrança dos torcedores noruegueses.
A classificação em cima do time italiano, que foi o principal carrasco da Noruega, em todas as suas participações em Copas do Mundo, simboliza o retorno dessa jovem seleção ao cenário mundial 28 anos depois de sua última participação. Embalado pela campanha nas eliminatórias, a Noruega tem a intenção de surpreender o mundo futebolístico e mostrar aos telespectadores que podem ser uma das seleções mais interessantes de acompanhar ao longo do torneio.
Após 28 anos, a lista dos 26 convocados para representar a Noruega na Copa do Mundo conta com:
Goleiros: Orjan Nyland, Egil Selvik e Tangvik
Defensores: Kristoffer Ajer, Torbjorn Heggem, Leo Skiri Ostigard, Sondre Langas, Henrik Falchener, Julian Ryerson, Marcus Holmgren Pedersen, David Moller Wolfe e Fredrik Bjorkan
Meio-campistas: Martin Odegaard, Sander Berge, Fredrik Aursnes, Patrick Berg, Kristian Thorstvedt, Thelonious Asgard e Morten Thorsby
Atacantes: Erling Haaland, Alexander Sorloth, Jorgen Strand Larsen, Antonio Nusa, Oscar Bobb, Andreas Schjelderup e Jans Petter Hauge